9 de set de 2014

Como comecei a gostar de mim

Vivemos numa sociedade em que você vale aquilo que tem, "você é" tudo aquilo que sua aparência demonstra ser e quando se é mulher digamos que de certa forma isso se exacerba. A maior parte da minha família é negra, sou filha de primos legítimos (negros) e por sorte do destino não nasci com nenhum problema genético. Meus pais sempre se esforçaram para me dar tudo de melhor, e felizmente eles sempre prezaram pela minha educação.
 Minha mãe é formada em pedagogia e meu pai não possui curso superior, isso não o impede de trabalhar bastante em dois locais diferentes.  Não tenho irmãos e desde pequena fui acostumada a passar a maior parte do tempo sozinha, meus pais sempre trabalharam o dia todo chegando a noitinha e eu estudava pela manhã, isso me garantia a tarde inteira só e livre em casa para fazer o que eu bem entendesse. 
Eu adorava desenhar, pintar e ler e ficava a tarde toda usando meu almanaque da Turma da Mônica. Minha mãe e meu pai sempre deram duro para me dar tudo de melhor e se esforçaram bastante para que eu estudasse em escolas que tivessem um bom ensino, isso me fez estudar em escola particular toda a minha infância e início de adolescência (digo início pq depois entrei na faculdade e ela é pública). 
Foi no fim do ensino médio que tudo começou a acontecer... 
Quando eu tinha mais ou menos uns 9 anos comecei a alisar meu cabelo que naturalmente é cacheado e simplesmente amava meu cabelo liso, minha mãe e minhas tias faziam isso nos delas também e como uma de minhas tias trabalhava em um salão de meses em meses eu ia lá refazer todos os processos para ter um cabelo liso e "mais bonito".
 Quem faz essas coisas no cabelo sabe que não é barato, os produtos geralmente são caros e isso fazia com que as vezes, com o passar do tempo, minha mãe não pudesse compra-los, tendo em vista que outras coisas eram mais importantes. Teve um período em que minha mãe passou a comprar os produtos e fazer meu procedimento em casa mesmo e as vezes isso não dava certo, acho que meu cabelo sofreu corte químico umas duas vezes, mas não dava pra notar tanto pq sempre fui muito cabeluda kk enfim isso perdurou por vários anos.
 Quando eu tinha 14/15 anos achava um saco acordar de manhã com aquela raiz cacheada e ter que fazer chapinha no cabelo, primeiro pq eu tinha que acordar mais cedo, segundo pelo tempo que eu levava pra deixar meu cabelo todo liso. Houve uma época em que meu cabelo estava totalmente sem forma, nem cacheado nem liso e como eu via que só com a chapinha ele ficava totalmente liso parei de alisá-lo. 
O tempo passou e troquei os alisantes pela chapinha, além disso passei a cortar meu cabelo sozinha (coisa que faço até hoje) o fato de cortar meu cabelo só fez com que ele aos poucos fosse voltando a sua real forma, mas não completamente, ele continuava feio e sem forma mas não parecia pq eu o usava chapado o tempo inteiro o que dava a ele um aspecto liso. 
No Ensino Médio, com todo aquele alvoroço de ter que passar no vestibular e etc minha mãe fez das tripas coração e me colocou numa das melhores escolas da cidade mesmo sem poder e tudo que ela ganhava ia direto pra mensalidade da bendita escola. Bem, a maioria das pessoas da escola tinham uma vida muito boa financeiramente e todas as outras coisas que isso lhes proporciona, e eu me sentia meio deslocada lá pq todo mundo era diferente de mim, o primeiro ano foi terrível pra que eu conseguisse me adaptar, mas fiz amigas com um tempo e isso ajudou bastante. 
Descobri que mesmo em lugares onde posturas elitistas predominam existem pessoas humildes que não precisam esbanjar o que tem para serem legais, e sim muitas pessoas incríveis entraram em minha vida lá. Foi na metade do 2° ano que comecei a assumir meus cachos, lembro como se fosse ontem o dia em que soltei eles pela primeira vez. Tive medo que as pessoas rissem de mim, ou que me achassem feia (mesmo eu achando meus cachinhos incrivelmente lindos)  enfim fiquei meio receosa, mas o que aconteceu foi exatamente o contrário. Foi a vergonha que por muitos anos me impediu de mostrar meus cachos, e mesmo eu os achando bonitos não tinha coragem de sair com eles livres porque tudo a minha volta demonstrava que eles não eram tão bonitos assim, que eles não eram o padrão ou o normal e que a minha beleza natural - de mulher negra- não significava nada diante dos padrões europeus de beleza impostos pela sociedade e fomentados pela mídia, por muito tempo esses padrões me oprimiram. 
Mas voltando ao grande dia.. Me ajeitei toda pela manhã, lavei meu cabelo e coloquei bastante creme para modelar meus cachos e depois coloquei uma fita roxa com um lacinho e sai. Eu não pensei que as pessoas fossem achar que meus cachos ficariam tão bem em mim, eu não pensava que outras pessoas além de mim mesma pudessem achar meu verdadeiro cabelo bonito, e elas acharam, inclusive a pessoa que eu namorava nesse momento da minha vida assumiu que preferia cabelos cacheados a lisos, e bem é óbvio que ele também achava meu cabelo natural mais legal. 
Por onde eu passava as pessoas olhavam e diziam que meu cabelo estava lindo e que eu deveria usar sempre ele daquele jeito, por incrível que pareça o natural venceu! Eu não conseguia me sentir mais feliz do que já estava e fiquei tão bem comigo mesma que naquele momento  pensei que era aquilo que eu queria fazer para sempre. 
Era aquele o meu cabelo e era daquela forma que ele deveria permanecer. Depois desse dia passei a usar chapinha cada vez menos e fui cuidando dos meus cachos, isso tudo não foi tão súbito assim quanto parece, ainda fiquei escrava da chapinha por muitos e muitos meses e voltei a usar ela em 2012 quando inventei de cortar meu cabelo no estilo chanel de bico, ficou bem curtinho e na minha cabeça cabelos cacheados não combinavam com cortes curtos, pq ia ficar todo bagunçado etc etc e etc. 
Quando o final do ano foi se aproximando comecei a assumir meus cachos novamente e me senti bem mais livre, tudo isso foi passando e o tempo também e eu consegui entrar na universidade. Passei para o curso de Serviço Social e muitas coisas aconteceram, na universidade nós temos muito mais liberdade para sermos como queremos, é lá que aprendemos muitas coisas e desconstruímos outras e com minha vivência lá fui, e venho ainda, desconstruindo muitos de meus preconceitos internos e cada vez mais entendo a importância da educação nesses aspectos. 
Foi com as minhas aproximações com os textos que fui revendo muitos de meus conceitos e mais precisamente com a disciplina de gênero, os debates a cerca do feminismo e de muitas das outras áreas que esse tema amplo aborda foram de certa forma abrindo minha mente e me mostrando o quanto nós mulheres somos oprimidas, de diversas maneiras. 
Nos são impostas coisas grotescas que somos obrigadas a seguir, formas de comportamento, maneiras de se expressar e de se relacionar com as outras pessoas, o jeito de se vestir  e mais uma porção de coisas que muitas vezes nem percebemos e acabamos reproduzindo. 
As questões étnico raciais foram me seduzindo cada vez mais, e isso aconteceu justamente pelo fato de eu estar inserida nessas questões, enquanto mulher e enquanto negra eu fui despertando para as coisas que me cercam e ainda estou despertando a cada dia que passa,  busco pela minha emancipação enquanto ser humano.
 E meus cachos onde ficam nessa história? Bem, depois de tudo isso não consigo mais viver sem eles, ainda uso a chapinha, mas isso hoje é muito raro, meus cachos dominam meus dias, minhas tardes e minhas noites, e mesmo me dando um trabalho enoorme me sinto muito feliz quando os vejo soltos e livres. 
Já sofri preconceito com eles sim, já me falaram coisas estúpidas a respeito deles, mas isso só me faz ter mais vontade de usá-los e inspirar outras meninas e mulheres e usarem os seu cachos também. Cabelos cacheados são preciosos, eles precisam de mais cuidado e de mais atenção, necessitam de uma boa alimentação do organismo para ficarem ok, e sem falar nos milhões de shampoos e cremes e finalizadores etc que temos que usar. 
Para nos amarmos precisamos primeiro quebrar os preconceitos existentes dentro de nós, se buscamos que os outros nos aceitem antes de nos aceitarmos nunca conseguiremos sentir amor próprio, a beleza é algo que não pode ser medido pelo tamanho da sua raiz de cabelo, ou pela sua cor, ou pelo jeito do seu nariz. A beleza é autêntica em cada pessoa e jamais uma super modelo poderá representar a beleza de milhões de mulheres, pq isso é particular em cada uma. 
Com esse texto eu quero dizer que somos todas lindas, que não precisamos acreditar no que a TV nos diz,  e no que está estampado nas revistas. Precisamos ter em mente que tudo o que a mídia faz é dar suporte ao desenvolvimento do sistema capitalista e que elea pouco se importa com o que é belo ou não, sua principal função é vender UM tipo de beleza (dentre muitas) para você, fazendo-a esquecer o quanto é linda e especial ao seu modo. Não se deixe enganar, você é maravilhosa naturalmente e nem precisa se esforçar para isso, você tem valor!  

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